Aquecimento Global Nazareth em 21 Jan 2009
Ano novo, velhos compromissos
Por: Ricardo Tripoli
O ano de 2009 começa com notícias velhas. Nos jornais brasileiros, a crise econômica mundial, as demissões recordes na indústria e a chegada de Barack Obama à Casa Branca parecem preencher todos os espaços do noticiário.
É inegável que esses temas são importantes. No entanto, a cobertura jornalística parece esquecer dos antigos problemas ambientais, que perduram há várias décadas e estão longe de ser resolvidos. Refiro-me diretamente ao desmatamento da Amazônia e à falta de uma agenda ambiental do governo federal.
A gestão do Presidente Lula não se deu conta que a área total desmatada de 706,9 mil quilômetros quadrados, já equivale a quase metade (45,1%) do Estado do Amazonas e corresponde a pouquíssimo menos que as superfícies terrestres da França, da Holanda e da Bélgica somadas. Também passou despercebido ao governo que a devastação praticamente dobrou - cresceu 97% - desde o fim de 1988, quando ela atingira 358,7 mil quilômetros quadrados.
No decorrer do ano passado, vimos muitas vezes o Ministério do Meio Ambiente (MMA) comemorar a redução de taxas mensais de desmatamentos sem perceber que caía o ritmo dessa diminuição. O que vimos acontecer foi a banalização de divulgação de índices pelo excesso de entrevistas coletivas e não coletivas do Sr. Ministro Carlos Minc.
Apenas para reavivar a memória dos nossos leitores, lembro que a área de floresta degradada por atividades humanas na Amazônia em 2008 foi 66% maior do que em 2007. Este índice é um alerta de que o desmatamento poderá crescer em 2009, caso o governo não reforce as medidas de proteção da floresta. Em outras palavras, há muita estatística e pouca reflexão.
Recentemente o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) desvendou as fases do processo de desmatamento. Segundo ó órgão, a devastação na Amazônia acontece por etapas. A floresta degradada, ou parcialmente explorada, é considerada ‘meio caminho andado’ para o chamado corte raso, quando a mata é completamente derrubada. Ainda de acordo com o INPE, é muito mais provável que o corte raso ocorra nas áreas já degradadas do que nas áreas de floresta intacta.
Portanto, neste começo de ano, o discurso e a falácia devem ser abolidos de vez. O mais importante é reduzir as queimadas e o desmate na Amazônia, que passaram a ser a vergonha nacional. Qualquer nível de redução do desmatamento é importante. E isso vai ser estudado pelos pesquisadores, pelas universidades e ONGs. Se em 2010 o nível de redução da derrubada das florestas não for atingido, o governo será obrigado a tomar medidas drásticas. O desmatamento não serve para nada. Acachapa o desenvolvimento, atrapalha os biomas e agrava o controle das mudanças climáticas.
Na contramão dos esforços para minimizar o aquecimento global, as emissões brasileiras de gases do efeito estufa a partir da geração de energia elétrica vão triplicar nos próximos dez anos. Sabemos que as queimadas de florestas são responsáveis por cerca de três quartos das emissões brasileiras de gases causadores do efeito estufa.
É urgente a adoção de uma política do governo e fortalecimento do poder do Estado. Precisamos usar o Estado, porque necessitamos de leis e sanções para punir quem desmata. A agenda ambiental não pode ser monopólio de um ou outro ministro; precisa fazer parte de uma visão de Estado, e essa visão infelizmente não existe. É deprimente constatar que, após sete anos de governo, o Presidente da República não possui uma visão ambiental estratégica.”
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