CIDADANIA Fernando Gutman em 23 Nov 2008
Artigo de convidado: Felipe Augusto Pereira Dias…Uma crônica sobre meninos de rua e de quem podemos ser
Na segunda-feira (31/03) fui ao centro da cidade resolver alguns problemas e aproveitei para bater perna pelas ruas.
Não sei o que me atrai nesse tipo de empreitada, mas adoro o cheiro de pipoca das carrocinhas da Avenida Rio Branco; gosto de entrar nos sebos e folhear livros antigos; tenho paixão em andar de metrô (acho que é uma relação meio freudiana o que tenho por esse meio de transporte). Com todos os seus problemas, a cidade do Rio de Janeiro ainda tem um charme discreto em suas linhas e curvas. Não há como não sentir um frio na espinha ao apreciar com leveza de espírito a arquitetura de prédios como o Teatro Municipal ou a Biblioteca Nacional. Aos que gostam de curtir um visual espetacular, recomendo uma visita à biblioteca do Centro Cultural Banco do Brasil, que tem uma das mais belas vistas da Baia da Guanabara (é lindo de morrer).
Já eram cinco da tarde quando eu passava pela Cinelândia e observei uma coisa me impressionou bastante: o grande número de crianças cheirando cola de sapateiro. O que me deixou mais chocado foi o fato de que naquele lugar havia uma grande quantidade de policiais que nada faziam, pois se acostumaram com aquela situação. Reagi conforme a grande maioria da população: passei direto. Mas uma cena me chamou a atenção: um menino muito magro e sujo encontrava-se deitado sobre um banco e estava, aparentemente, morto (seus olhos sem brilho estavam abertos e ele não piscava). Por um instante fiquei parado diante do banco observando se ele encontrava-se realmente morto. Pensei: “não, ele está respirando!”. Não sei descrever o que senti naquele momento, mas tive um impulso e fui comprar um cachorro-quente em uma barraquinha próxima. Cheguei perto do menino e ofereci o sanduíche e um copo de guaraná. O menino estava tão drogado que não me respondeu. Ele limitou-se a olhar ao seu redor e continuar deitado. Um senhor que estava sentado próximo ao local sussurrou: “ele cheirou muita cola, está doidão”. Outras duas crianças lançaram-se em minha direção pedindo o sanduíche. Eu dei o cachorro-quente a um dos meninos e disse que o mesmo era para os dois. Foi quando percebi que o outro menino carregava uma garrafa com cola de sapateiro.
“- Você não vai comer o cachorro-quente sem antes me dar essa garrafa!”, eu disse. O menino fez um sinal de negação com a cabeça e deu uma tragada na garrafa. “-O cachorro quente está tão gostoso!”. “-Você não quer um só para você?”, perguntei. O menino coçou a cabeça, olhou para mim com um olhar que jamais vou esquecer e esticou o braço com a garrafa para mim. Apanhei a garrafa e levei-o até a barraquinha de cachorro- quente. Pedi que a senhora da barraca preparasse um para meu jovem acompanhante. Ela percebeu o meu gesto e me fez um elogio. Juro que me senti humilhado com aquela situação. Juro que senti vergonha de ter sido cuidado e alimentado por meus pais. Naquele momento não sentia orgulho nenhum…apenas uma sensação ruim de que existe um mundo que funciona e um mundo que não funciona. “Jogue a garrafa fora porque a polícia vai pensar que é você quem a está cheirando!”, disse-me outra mulher que passava por perto e presenciou a cena.
Vivemos em um mundo doente. Estamos tão famintos por humanidade e compaixão quanto aquela criança por comida. Não era um cachorro quem comia aquele sanduíche, era um outro ser humano: outro ser humano como eu; outro ser humano como você; outro ser humano como CEO de uma multinacional ou um presidente. Aquele menino é um vir a ser; uma semente que, se regada corretamente, poderia se transformar em um engenheiro, um médico, um arquiteto, etc. Eu comprei sua efêmera felicidade por apenas R$ 1,30, mas ele me ensinou uma lição de inestimável valor: a beleza sutil escondida por de trás do futuro de todos nós. Já dizia a música “somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter”…aquela criança foi privada de viver seus sonhos e encontrar-se com seu eu-futuro. No livro “O menino no espelho” de Fernando Sabino, o autor descreve, no início do livro, a experiência do encontro de uma criança com um adulto imaginário. No final do livro o personagem já adulto encontra-se com uma criança imaginária. Todos os personagens eram a mesma pessoa.
Por uma instante, ao observar o menino de rua mordendo o cachorro-quente, pude me ver comendo um pedaço de pão com salsicha, pagos por um desconhecido. Aquele sentimento foi desconcertante. Caminhei sem saber para onde ir durante alguns minutos. Percebi que estava próximo à câmara dos vereadores e subi suas escadarias. Perguntei ao segurança se ainda havia algum vereador ali. Ele disse que não. “Pois é, eu só queria dar para um desses safados uma garrafa de cola que acabei de trocar com um menino por comida” (eu não sabia muito bem o que estava fazendo).
Não sei o nome do garoto, mas o sou infinitamente grato. Escrevo esta crônica e dedico ao pequeno grande espírito que cruzou o meu caminho naquele momento e me tornou um homem mais humilde e me fez descobrir a responsabilidade que temos nas mãos: a responsabilidade de aproveitarmos o que nos foi dado (alimento, saúde, educação, ética) para utilizarmos como ferramenta para edificarmos a escada que levará nossos irmãos excluídos ao encontro de um mundo mais justo e belo. Espero que este texto sirva como um grito de um pobre brasileiro que está aguardando algo tão simples, tão valioso e que todos podemos dar de coração: um pouco de carinho.
Felipe Augusto Pereira Dias, um cidadão do Rio de Janeiro, engenheiro químico
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